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‘Uma mãe dá uma vida pelo filho e eu não pude fazer nada pelo meu’, diz sobrevivente de chacina ‘La Mané’

Está sendo realizado nesta terça-feira (18) o julgamento de Clebio Jose Machado de Lima e Marrquessimedice Correa dos Santos pela chacina conhecida como “Lá Mané”, ocorrida no dia 8 de abril de 2001 na região do Cinturão Verde no bairro Pedra 90. A primeira testemunha ouvida foi Ivone Socorro da Silva, única sobrevivente do crime. Durante seu depoimento ela se emocionou bastante ao lembrar do momento em que viu seu filho de 8 anos ser baleado. Ela se lamentou dizendo “uma mãe dá uma vida pelo filho e eu não pude fazer nada pelo meu”.

Na ocasião foram mortos com vários tiros de pistola o comerciante Manoel Sebastião de Lima, 48, o “La Mané”, o filho Manoel Sebastião de Lima Júnior, 8, e o sobrinho José Davi Rodrigues de Lima, 11. Um dos envolvidos no crime, Marcos Ribeiro de Campos, 21, o “Cenoura”, já morreu. O autor do crime seria o cabo Hércules.

Ivone iniciou falando que foi casada com Manoel por 10 anos e, além dos investimentos eu seu comércio, o Lá Mané, o casal também havia comprado 18 hectares em uma propriedade próxima ao Cinturão Verde, onde ocorreu o crime.

Ela foi a segunda esposa de Manoel. Do primeiro casamento ele teve 3 filhos, um deles é Clebio Jose Machado de Lima. Depois que a mãe deles morreu, a parte dela foi dividida entre os filhos, no entanto, Ivone disse que Clebio continuava a cobrar dinheiro do pai, afirmando que teria parte também no Lá Mané.

Manoel, no entanto, disse que iria deixar o comércio para seu filho, do casamento com Ivone, Manoel Júnior, mas Manoel se queixava. Ela também disse que Clebio ameaçou o pai mais de uma vez.

“Ele falou ‘não, engano seu, tudo o que o senhor tem aqui, nós tem parte, e o senhor não duvida que eu tenho coragem de te matar’ […] Ainda falei pra ele prestar queixa, Clebio brigava por conta de dinheiro. […] Ele falou ‘o Clebeio me ameaçou de novo, falou que só vai sossegar quando eu ou ele carregar a alça do caixão do outro’”, disse a viúva.

Ela também afirmou que Clebio fazia parte de uma gangue e os membros deste grupo frequentavam o Lá Máné. Segundo ela, eles tinham envolvimento com o cabo Hércules, ex-pistoleiro de João Arcanjo Ribeiro.

Após roubos na casa do casal, com suspeita de que tivessem sido praticados por Clebio, Manoel parou de guardar o dinheiro do comércio na casa, costumava levar para o sítio na caminhonete.

Ivone também detalhou como foi o dia do crime.  

“Foi num domingo, a gente trabalhava e quando foi 1 da tarde fechamos, como de costume, e fomos para a chácara […] aí passou o Davi, ele sempre ia, era muito grudado com meu filho, meu filho chamou pra ir pra chácara […] quando chegou lá, tivemos o dia normal, meu marido fez o que  tinha pra fazer, trabalhou, aí ele falou que queria comer frango, eu falei que pra voltar mais cedo, que não queria ir embora de noite”.

A abordagem da dupla de criminosos ocorreu logo ao saírem da chácara, já para voltar para Cuiabá na caminhonete.

“Fomos embora, quando chegou na porteira, era uma porteira de arame […] o Davi estava em cima, porque ele ia descer e abrir a porteira. Quando o Davi desceu pra abrir a porteira veio um cara de um lado e outro do outro, falou assim ‘é um assalto’. […] escutei um tiro, o Cenoura pegou e já tinha dado um tiro na barriga do Manoel e eu comecei a chorar”.

Em seguida as vítimas foram amarradas, mas depois Manoel foi solto para que dirigisse a caminhonete, baleado.

“Eu comecei a chorar, me deu uma coronhada na cabeça, falou ‘cala a boca vagabunda’ […] meu marido deitou, amarraram a gente […] as crianças não choraram, não falaram nada, só ficaram olhando, ai falou ‘coloca eles no carro’, entramos […] o Manoel dirigindo, aí ele falou assim, o Cenoura, ‘faz dias que queria pegar vocês, só que queria pegar a família inteira junto”.

Durante o depoimento Ivone se emocionou, começou a chorar, enquanto se lembrava do dia da chacina.

“O meu marido falou assim, ‘tenho dinheiro, no banco, fala quanto vocês querem, só não mexe com minha família’ […] eu falava ‘moço não faz nada com a gente não, pela sua mãe’, ele falou assim ‘fala em mãe não’. No trajeto ele falava assim, ‘aqui tem uma bala expansiva pra cada um e eu só atiro na cabeça’”.

Depois de seguirem por mais um tempo os bandidos mandaram parar, Manoel teve que ensinar um deles como dirigir a caminhonete, e todos desceram do veículo. Os criminosos deram ordem para que todos deitassem no chão.

“Falou ‘desce todo mundo’, aí meu filho foi descer, caiu, quando meu filho caiu eu falei ‘vou pegar meu filho’, quando levantei a cabeça eu vi a cara dele [Clebio]. O Cenoura, eu não olhei no rosto dele, só conheci pelo timbre da voz, a voz ficou na minha cabeça até hoje”.

Ainda bastante emocionada, Ivone continuou relatando, chorando, que um dos bandidos saiu com a caminhonete e depois retornou dizendo “a ordem é para matar todo mundo”.

“Ficou enchendo o revólver de bala, eu ouvindo tudo, falou pro meu marido ‘quem é essa mulher?’, ‘ela é minha esposa’, ‘e essas crianças?’, ‘meu sobrinho e meu filho’, ai ele falou ‘você é um safado’. Aí ele passou a mão na minha bunda, ele cheirou cocaína, eu ouvi, era umas 7 e meia da noite. Quando o Cenoura chegou ele falou que queria me estuprar, o Cenoura disse que não, falou que a ordem era pra matar todo mundo”.

Ivone se recorda do momento que Manoel e seu filho foram baleados. Ela disse que tomou 9 tiros.  

“Quando o Cenoura chegou, meu filho começou  a rezar o pai nosso, todas as noites ele rezava antes de dormir, esse dia não foi diferente, ele estava com muito medo e começou a rezar […] eu não lembrei de Deus nessa hora, estava com muito medo do que ia acontecer […] meu filho estava rezando, teve um tiro na barriga do Manoel, ele falou ‘mãe estão matando meu pai’, eu falei ‘calma filho’, quando eu olhei eu vi o tiro no meu filho, aí eu levei os tiros”.

Em seguida os bandidos teriam disparado mais vezes contra as vítimas e pisaram neles para confirmar as mortes. Logo depois os bandidos deixaram as vítimas, com o dinheiro que estava na caminhonete, e Ivone saiu de lá.

“Uma mãe dá uma vida pelo filho e eu não pude fazer nada pelo meu […] eu peguei e levantei com o cotovelo, meu filho estava agonizando ainda, quando eu levantei eu desmaiei, não sei quanto tempo fiquei desmaiada […] aí eu olhei e Manoel já tinha morrido, meu filho estava agonizando, o Davi não olhei. Eu falei ‘filho a mãe vai buscar socorro e volto”.

No trajeto Ivone disse que desmaiou mais vezes até que conseguiu chegar a um posto. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) foi até o local e Ivone foi levada ao Pronto Socorro. Ela disse que os médicos não acreditavam que ela fosse sobreviver.

“Eu carreguei muito tempo na minha vida porque não pedi pro policial ir lá buscar meu filho, eu não pedi, eu já estava muito fraca, eles pegaram e me levaram para o pronto socorro, meu único filho, não tenho mais filho, não tenho ninguém, acabaram com minha vida, tem vezes que pergunto pra Deus o porquê fiquei viva, eu sofro demais”.

A sobrevivente ficou 8 dias na UTI e mais outros 4 dias no quarto, sendo acompanhada no hospital e com policiais de guarda.

Ela disse que ouviu de familiares que Clebio foi no velório das vítimas e estava muito sorridente, “parecia que estava em uma festa”, dizendo que o autor do crime seria um suposto amante de Ivone, na tentativa de despistar a polícia. Essa informação nunca foi provada. Clebio também teria ido ao hospital ver Ivone e falou para que ela não comentar o que ocorreu.

A vítima contou que ficou com pouca parte da herança, que a caminhonete foi vendida para pagar despesas médicas e do velório. Também afirmou que, após o crime, sua casa foi arrombada e os documentos do Lá Mané foram roubados. Ela hoje vive com pensão do Governo, com sequelas do crime.

“Não saio de casa, me fechei no meu mundo, por isso que eu falo que preferia ter morrido do que ter essa vida, mas se Deus me deixou foi pra fazer Justiça [...] só tenho interesse em Justiça, meu bem mais precioso eu já perdi, que é meu filho e meu marido, que era trabalhador”.

O julgamento continua durante o dia de hoje (18).

Por Vinicius Mendes/gd/Foto : João Vieira

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