A novela da renegociação das dívidas do agronegócio ganhou mais um capítulo em Brasília — e daqueles com potencial para deixar produtores, banqueiros e ministros sem dormir.
De um lado, a bancada ruralista comemora o avanço de um projeto que pode abrir caminho para renegociar bilhões em dívidas do setor. Do outro, o Ministério da Fazenda olha a proposta como quem vê uma boiada se aproximando da cerca recém-consertada.
O texto aprovado na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado prevê juros bem mais camaradas do que os defendidos pelo governo. Tão camaradas que, segundo o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, o modelo poderia até “quebrar os bancos”. Não é todo dia que uma proposta consegue unir produtores felizes e banqueiros preocupados.
No centro da disputa está uma pergunta simples: quem vai pagar a conta? O agro defende o uso do Fundo Social do pré-sal para ajudar a financiar a renegociação. A Fazenda faz cara feia. Os produtores insistem. O governo resiste. E o Senado segue empurrando a discussão para a próxima rodada.
Enquanto isso, o Banco do Brasil acompanha tudo com atenção redobrada. Principal financiador do setor, a instituição viu a inadimplência crescer e teme que juros muito baixos transformem a renegociação em um excelente negócio para quem deve — e uma dor de cabeça para quem empresta.
Nos corredores de Brasília, há quem diga que a proposta virou uma espécie de “Plano Safra da discórdia”. O agro argumenta que precisa de fôlego para atravessar um período de margens apertadas e juros elevados. Já o governo tenta evitar que o remédio para os produtores vire uma enxaqueca para as contas públicas.
Por enquanto, ninguém sabe qual será o desfecho. Mas uma coisa é certa: se o projeto continuar avançando nesse ritmo, o único setor com safra garantida será o de reuniões, negociações e cafezinhos nos gabinetes de Brasília.




