A nomeação de Adriana Almeida de Oliveira para um cargo comissionado na Prefeitura de Cuiabá expõe uma contradição difícil de ser ignorada pela gestão do prefeito Abilio Brunini (PL). Eleito sob um forte discurso de combate à corrupção, moralização da administração pública e crítica às indicações políticas, Abilio mantém em sua estrutura administrativa a esposa do vereador Cezinha Nascimento (União), parlamentar que se tornou alvo da Operação Emenda Oculta por suspeitas de corrupção e desvio de recursos públicos.
De acordo com a Gazeta Municipal de Cuiabá de 15 de janeiro de 2025, Adriana foi nomeada para o cargo de Coordenador Técnico de Assistência na Secretaria Municipal de Saúde. Embora a nomeação seja legal e não exista acusação formal contra ela, o simbolismo político da decisão gera questionamentos inevitáveis. Afinal, o discurso de ruptura com práticas tradicionais da política perde força quando figuras diretamente ligadas a agentes públicos investigados permanecem ocupando cargos de confiança dentro da administração.
A situação ganha ainda mais repercussão diante da exposição feita pela própria servidora nas redes sociais. Em diversas publicações, Adriana compartilha conquistas pessoais, como a aquisição de veículos, sempre destacando o apoio do marido. Em um dos vídeos, publicado meses após a operação que atingiu Cezinha Nascimento, ela aparece ironizando a velocidade nas ruas ao som de uma música que menciona “a polícia atrás da gente”. A publicação, embora possa ser interpretada como mera brincadeira, inevitavelmente gera desconforto diante do contexto político e das investigações em curso.
Os dados salariais divulgados pelo PNB Online também chamam atenção. Como servidora comissionada, Adriana recebe aproximadamente R$ 10 mil líquidos mensais, considerando salário, verba indenizatória e prêmio saúde. Enquanto isso, o vereador Cezinha Nascimento e seu irmão, o deputado estadual Elizeu Nascimento (Novo), são citados em uma investigação que apura suposto esquema de desvio de emendas parlamentares destinadas ao Instituto Social Mato-Grossense (ISMAT) e ao Instituto Brasil Central (IBRACE), com recursos que, segundo o Núcleo de Ações de Competências Originárias (Naco), teriam sido desviados por meio de uma empresa intermediária.
O caso reforça a distância entre discurso e prática que frequentemente marca a política brasileira. As indicações políticas e o combate à corrupção foram duas das principais bandeiras que impulsionaram Abilio Brunini da oposição à vitória eleitoral em 2024. No entanto, ao manter em cargo de confiança a esposa de um parlamentar investigado por suspeitas de corrupção, sua gestão acaba alimentando dúvidas sobre a coerência entre as promessas de campanha e as decisões adotadas dentro do próprio governo.
Por Cícero Henrique




