Um suposto laudo da Polícia Federal (PF) que circula no Facebook e no X afirma não haver indícios de crimes nas conversas entre o deputado federal e candidato à reeleição Nikolas Ferreira (PL-MG) e Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Publicações que compartilharam a imagem do documento atribuído à PF alegam que o relatório desmente, “em menos de 24 horas”, a “narrativa” que associa o parlamentar bolsonarista ao ex-banqueiro, preso por suspeitas de fraudes financeiras — em referência a reportagem do ICL Notícias que revelou troca de áudios entre os dois. É falso. O laudo foi criado com inteligência artificial (IA).
Por WhatsApp, leitores sugeriram que o conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Caiu por terra a narrativa foi em menos de 24h: PF diz em relatório que não há indícios de crimes do deputado Nikolas Ferreira em conversa com Vorcaro.
“Não foram identificados indícios suficientes para sugerir a abertura de inquérito específico ou adoção de medidas investigativas em face do Deputado Nikolas Ferreira”
– Post que circula no WhatsApp que, até o dia 4 de setembro de 2026, tinha mais de 13,2 mil visualizações
A Polícia Federal não elaborou relatório que viralizou nas redes sociais sobre análise de mensagens trocadas entre Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro. À Lupa, a PF informou que o documento não foi produzido pela corporação. A imagem apresenta sinais de ter sido gerada com IA.
Três ferramentas de detecção de conteúdo sintético identificaram indícios de uso de inteligência artificial na imagem do relatório atribuído à PF.
A plataforma ZeroGPT indicou 95% de probabilidade de manipulação digital. Já o AI or Not apontou 87% de probabilidade de uso de IA. A ferramenta da OpenAI identificou a marca d’água SynthID, associada a conteúdos gerados ou modificados com ferramentas da empresa, criadora do ChatGPT.

Além disso, o documento falso atribuído à PF apresenta uma série de inconsistências, como erros de português, datas diferentes, logomarca da PF errada e estrutura característica de conteúdos sintéticos.

Entre as evidências de IA estão:
- a expressão “contato salvado”, que apresenta erro gramatical, em vez de “contato salvo”;
- a logomarca da PF, que difere da versão oficial: o símbolo original que tem contornos nas fitas e um triângulo no lugar do acento agudo da palavra “polícia”;
- A divergência entre os períodos de análise: no canto superior direito, consta “01/01/2024 a 17/11/2025”, enquanto no primeiro box indica “07/01/2025 a 31/01/2025”;
- a numeração irregular dos itens, que pula do 7 para o 7.3;
- a estrutura em lista, com o uso de símbolos como marcadores, incluindo a imagem de uma caixa de diálogo no trecho “excerto das mensagens transcritas” e o símbolo da Justiça (balança) em “análise técnica”;
- o diálogo atribuído ao deputado mineiro e ex-banqueiro, que não corresponde ao conteúdo dos áudios revelados pela imprensa.
Denúncia do ICL revela pedido de ajuda de Nikolas a Vorcaro
Em 3 de setembro, o ICL Notícias revelou áudios que mostram Nikolas Ferreira pedindo a Daniel Vorcaro ajuda para seu advogado e ex-assessor de gabinete, Thiago Rodrigues de Faria.
Em áudio enviado em 30 de março de 2025 — e não em janeiro de 2025, como indica o relatório falso — o parlamentar pede apoio do ex-banqueiro para liberar “um ativo de minério” do amigo. Na gravação, Nikolas Ferreira se refere a Vorcaro como “Dani”.
Ao comentar sobre o caso, o político se defendeu, alegando que as mensagens eram “irrelevantes” e que não havia falado anteriormente sobre os contatos por não considerá-los importantes.
Nesta sexta (4), Nikolas Ferreira — que chegou a publicar o laudo falso da PF nos stories de seu perfil no Instagram — admitiu ao portal Metrópoles que repostou a publicação de um perfil no X e que apagou logo depois.
Por Carol Macário




