O julgamento do empresário Carlos Alberto Gomes Bezerra, conhecido como Carlinhos Bezerra, acusado de matar a ex-companheira Thays Machado e o namorado dela, Willian César Moreno, foi adiado, na manhã desta terça-feira (21).
O fato ocorre após a defesa abandonar o plenário do Tribunal do Júri, em Cuiabá.
Diante da saída dos advogados, a juíza Mônica Catarina Perri Siqueira, da 1ª Vara Criminal da Capital, suspendeu a sessão e redesignou o julgamento para o próximo dia 31, às 9 horas.
Na decisão, a magistrada determinou que o réu constitua uma nova defesa.
Caso isso não ocorra, a Defensoria Pública assumirá a representação, por meio do defensor Marcus Vinícius Esbalqueiro.
CERCEAMENTO – Antes do início da sessão, os advogados sustentaram que não tiveram tempo suficiente para analisar todo o conjunto probatório reunido ao longo da investigação.
Segundo o advogado Elson Marcelino da Silva Júnior, a nova equipe recebeu cerca de 109 gigabytes de documentos, vídeos, extrações de aparelhos celulares e demais provas digitais, distribuídos em três pen drives, oito CDs e DVDs, além de milhares de páginas de processos.
Conforme a defesa, todo esse material passou a ficar disponível apenas sete dias antes da data marcada para o júri.
“Fomos surpreendidos com 109 gigas de documentos. É um volume que exigiria pelo menos dois meses de análise”, afirmou o advogado.
Marcelino também alegou que, poucos dias antes do julgamento, a defesa tomou conhecimento da existência de outros procedimentos relacionados ao caso, incluindo um processo com aproximadamente 1,3 mil páginas, ao qual ainda não teria obtido acesso integral.
Segundo ele, justamente um desses procedimentos serviu de fundamento para a decretação da prisão preventiva do empresário.
QUESTIONAMENTO SOBRE PROVAS – Outro ponto levantado pelos defensores diz respeito à cadeia de custódia dos aparelhos celulares pertencentes às vítimas.
A defesa afirmou que os telefones continuaram sendo utilizados após os homicídios – inclusive, com registro de troca de mensagens -, circunstância que, na avaliação dos advogados, comprometeria a integridade das provas produzidas durante a investigação.
O Ministério Público rebateu o argumento e sustentou que não houve qualquer irregularidade capaz de invalidar os elementos probatórios reunidos no inquérito.
A juíza também rejeitou a alegação, entendendo não haver fundamento jurídico para interromper ou adiar o julgamento em razão da suposta quebra da cadeia de custódia.
Após a decisão, os advogados anunciaram o abandono do plenário, afirmando que houve cerceamento do direito de defesa.
PERÍCIA PSIQUIÁTRICA – A defesa também voltou a criticar a decisão judicial que rejeitou a instauração de incidente de insanidade mental do acusado.
Segundo Marcelino, um laudo psiquiátrico particular apontaria elementos suficientes para justificar a realização de perícia oficial por especialistas em psiquiatria e psicologia forense.
A juíza Mônica Siqueira, contudo, entendeu que o pedido foi formulado apenas às vésperas do julgamento, cerca de três anos após os crimes, sem elementos técnicos produzidos sob contraditório que demonstrassem dúvida concreta sobre a capacidade mental do réu.
O advogado negou que a medida tivesse como objetivo impedir o julgamento.
“Não buscamos impunidade. Queremos apenas assegurar que todas as garantias constitucionais sejam respeitadas”, afirmou.
ACUSAÇÃO – Carlinhos Bezerra responde por feminicídio qualificado e homicídio qualificado pela morte da ex-companheira Thays Machado e do então namorado dela, Willian César Moreno.
Segundo a denúncia do Ministério Público, os crimes ocorreram em 18 de janeiro de 2023, em frente ao edifício onde morava a mãe de Thays, no bairro Consil, em Cuiabá.
A acusação sustenta que o empresário agiu motivado por vingança, em razão do término do relacionamento com Thays.
Ainda conforme o MP, o acusado monitorava a rotina da ex-companheira desde o fim do relacionamento, em dezembro de 2022.
No dia do crime, as vítimas aguardavam um veículo por aplicativo, quando foram surpreendidas pelos disparos feitos de dentro do carro conduzido por Carlinhos.
Em relação a Thays, a denúncia enquadra o caso como feminicídio praticado em contexto de violência doméstica e de gênero.
Quanto à morte de Willian, o Ministério Público aponta homicídio qualificado por motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
PRISÃO – Filho do ex-governador e ex-presidente nacional do MDB, Carlos Bezerra, o empresário foi preso poucas horas após o crime, em uma propriedade da família, no município de Campo Verde (140 km a Leste de Cuiabá).
Atualmente, permanece custodiado na Penitenciária Major PM Ahmenon Lemos Dantas, em Várzea Grande, onde aguardará a nova sessão do Tribunal do Júri, marcada para o próximo dia 31.
Por JOANICE DE DEUS




