Vivemos tempos em que a liberdade de pensar, paradoxalmente, tem aprisionado muitas pessoas. Quando não sabemos administrar nossos próprios pensamentos, abrimos espaço para que o negativismo ocupe terreno fértil — e, com ele, surgem as incertezas que passam a comandar nossas atitudes.
Talvez a grande virada esteja em algo simples, mas profundamente desafiador: valorizar o que já temos, em vez de viver reféns do que nos falta. A busca incessante por “mais” tem levado muitos a uma dependência silenciosa de felicidades artificiais — aquelas alimentadas pelo consumo, pelas aparências e pela necessidade de ostentar conquistas que, no fundo, são passageiras.
Nessa corrida, relações humanas acabam ficando pelo caminho.
Desistimos das pessoas com facilidade, muitas vezes antes mesmo de tentar compreendê-las. No entanto, relacionar-se exige maturidade: é saber ceder, acolher imperfeições e reconhecer que errar faz parte da condição humana. São nesses pequenos gestos — muitas vezes ignorados — que mora a verdadeira beleza da convivência.
Mas o mundo moderno tem criado uma armadilha perigosa: a exigência do extraordinário em tudo. Com isso, o simples perdeu valor. E quando o simples deixa de encantar, cresce o número de pessoas solitárias, viajantes de si mesmas, incapazes de encontrar no outro aquilo que nem elas mesmas conseguem cultivar.
Exigentes demais, tornam-se vazias. E, nesse vazio, passam a buscar caminhos que muitas vezes nem existem.
Saber se relacionar, portanto, é um exercício de abertura. É oferecer antes de cobrar. É viver cada encontro com intensidade, como se ali estivesse uma oportunidade única de conexão verdadeira. Só assim conseguimos afastar o tédio, a rotina desgastante e a angústia que tanto sufoca a vida contemporânea.
Por fim, é essencial aprender a filtrar. Nem todo estímulo merece atenção. Nem toda tensão precisa ser abraçada. Preservar a paz interior também é uma escolha — e, talvez, uma das mais importantes.
Porque, no fim das contas, são as relações — e não as posses — que dão sentido à vida.
(*) WILSON CARLOS FUÁH é economista.




