Documentos da denúncia oferecida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) detalham a atuação da pastora Orminda Carlos de Barcelos, 55 anos, apontada como a matriarca do clã investigado na Operação Fariseus. Casada com o pastor Nivaldo de Almeida, cujo processo foi extinto após seu falecimento em 5 de setembro deste ano em decorrência de um câncer, Orminda operava ativamente na intermediação entre faccionados presos e soltos, além de gerenciar a lavagem de dinheiro e a ocultação de armas.
Os autos do processo mostram que a conduta da pastora em nada tinha a ver com assistência religiosa prestada pelo projeto “Resgatando Vidas” na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá.
Em uma das mensagens interceptadas pela Polícia Civil e citadas pelo Gaeco, Orminda conversou com a filha e principal alvo da investigação, Rhavenna Barcelos, afirmando sem rodeios: “Vamos lá buscar uma arma pra vender”.
Interceptação mostra Orminda conversando com sua filha Rhavenna (foto).
A investigação aponta que a matriarca e o marido guardavam armamentos em um sítio da família para comercialização em benefício da organização criminosa. A intimidade da matriarca com a cúpula do crime organizado também a levou para fora do estado.
Registros e quebras de sigilo telemático apontam que Orminda chegou a se hospedar na residência de Jonas Souza Gonçalves Júnior, o “Batman”, apontado como liderança da facção e então foragido da Justiça, em uma favela do Rio de Janeiro.
Em janeiro de 2025, enquanto Rhavenna informava que estava na “base com os meninos”, a própria Orminda recebeu ordens diretas de “Batman” para que ambas deixassem o local por questões de segurança.
Dentro do sistema prisional mato-grossense, a influência de Orminda era tamanha que ela era tratada com extrema proximidade por detentos de alta periculosidade. O Gaeco identificou cartas de presos como Júlio, Júnior e Escobar em que os criminosos chamam abertamente Orminda de “mãe”, pedindo que ela guardasse valores em espécie e transportasse itens ilícitos para dentro do presídio.
“A Paz do Senhor”, dizem presos em cartas enviadas a Orminda
Os itens, segundo o Ministério Público, eram repassados por devedores da facção, destituídos de qualquer origem lícita. O envolvimento do núcleo familiar com o fluxo financeiro ilícito também aparecia em diálogos cotidianos.
Em fevereiro de 2026, conversas interceptadas revelam Orminda discutindo com Rhavenna sobre repasses enviados por chefões para a quitação de veículos da família. A teia criminosa, no entanto, gerava atritos de consciência.
Em registros anteriores, a matriarca chegou a lamentar o envolvimento familiar ao afirmar que faziam o que “Deus não queria”, recebendo como resposta da filha a constatação de que formavam uma “família suja”.

Com a denúncia acolhida pela Justiça, Orminda responde penalmente pelos crimes de integração de organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Entenda o caso
Rhavenna Barcelos Cabeça de Almeida e outras cinco pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) por suposto envolvimento em um esquema ligado a uma facção e de lavagem de dinheiro em Cuiabá. Segundo o Gaeco, Rhavenna e familiares recebiam, guardavam e movimentavam valores atribuídos a integrantes da organização, inclusive presos.
Durante as buscas, foram apreendidos R$ 10,9 mil em espécie com Orminda Carlos de Barcelos Almeida e R$ 1.534 com Rhavenna. A denúncia foi apresentada à 7ª Vara Criminal de Cuiabá.
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Grupo “Resgatando Vidas” tinha livre acesso à PCE. No destaque, Rhavenna, apontada como líder do grupo.
Além de Rhavenna, foram denunciados Renildo Silva Rios, Orminda Carlos de Barcelos Almeida, Rhuan Barcelos da Conceição, Anatany Nina de Barcelos Souza Alves e Lo Rhuama Barcelos de Almeida Gobbi. Rhavenna, Renildo e Orminda são acusados de integrar organização criminosa e de lavagem de dinheiro. Rhuan, Anatany e Lo Rhuama respondem, na denúncia, apenas por lavagem de dinheiro. O Ministério Público pediu que os seis sejam processados e, ao final da ação, condenados.
De acordo com a denúncia, a investigação começou após uma informação anônima apontar que integrantes da família utilizariam atividades religiosas para ter acesso a presos da Penitenciária Central do Estado (PCE).
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As irmãs Rhavenna, Lo Rhuama e Anatany Nina. Todas, segundo Gaeco são filhas de Orminda
O Gaeco afirma que Rhavenna e Orminda participavam da equipe de evangelização “Resgatando Vidas” e que as visitas facilitavam o contato entre integrantes da facção que estavam presos, soltos e foragidos. A acusação sustenta que as duas levavam e traziam informações, além de atenderem a pedidos feitos por detentos.
O Gaeco aponta Rhavenna como responsável por fazer a comunicação entre integrantes da facção, prestar auxílio a presos e participar da movimentação de dinheiro. A denúncia cita dados extraídos da conta dela no iCloud, além de mensagens, fotografias e registros de viagens ao Rio de Janeiro, como elementos da investigação.
Segundo o documento, Rhavenna mantinha proximidade com integrantes apontados como lideranças do Comando Vermelho, entre eles Jonas Souza Gonçalves Júnior, conhecido como “Batman”, e Renildo Silva Rios, chamado de “Veio”, “Velhote” ou “Chapa”.
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Rhavenna namorava com Jonas Souza Gonçalves Júnior, conhecido como “Batman”, e Renildo Silva Rios, o “Velhote”.
Renildo, que já está preso na PCE, é apontado pelo Gaeco como um dos conselheiros do grupo em Mato Grosso. Conforme a denúncia, o núcleo familiar de Rhavenna seria responsável por movimentar dinheiro atribuído a ele por meio da aquisição de bens, recebimento de valores e presentes, armazenamento de dinheiro em espécie e posteriores repasses.
A acusação afirma que Orminda fazia a intermediação entre integrantes da facção presos e soltos e participava da movimentação financeira. Rhuan teria armazenado dinheiro em espécie em sua residência para posterior entrega a Rhavenna.
Anatany, que trabalhava em uma lotérica, teria auxiliado na realização de depósitos e no controle das contas utilizadas para receber valores, enquanto Lo Rhuama também teria participado da movimentação e divisão dos recursos. Segundo o Gaeco, o dinheiro circulava entre familiares e por contas com menor movimentação como forma de evitar bloqueios ou alertas bancários.
Já Wiara Lima Cadore, Karolina Lopes Padilha, Jéssi Mariane Araújo dos Anjos e Lais Barbosa Lopes, indiciadas por falso testemunho, terão a situação analisada separadamente para eventual acordo de não persecução penal.
A denúncia contra os seis acusados foi assinada pelo promotor de Justiça João Batista de Oliveira, do Gaeco, na sexta-feira (11).
Por ANA ADÉLIA JÁCOMO
VANESSA MORENO



