Estado tem a melhor relação entre os preços do etanol e da gasolina no país; expansão de R$ 704 milhões da Inpasa elevará capacidade da unidade de Nova Mutum para 3 milhões de toneladas de grãos por ano e cerca de 1,4 bilhão de litros de etanol
O mercado brasileiro de etanol encerrou agosto com Mato Grosso ocupando posição de destaque no cenário nacional. Enquanto os preços apresentam movimentos distintos entre as usinas e os postos, o Centro-Oeste consolida-se como uma das regiões mais competitivas para o biocombustível, impulsionado principalmente pelo avanço da produção de etanol de milho.
Mato Grosso liderou em agosto o ranking nacional de competitividade do etanol em relação à gasolina. No Estado, o preço do biocombustível correspondeu a apenas 55,6% do valor da gasolina comum, muito abaixo do patamar de 70% tradicionalmente utilizado como referência para definir quando o abastecimento com etanol é economicamente vantajoso.
O resultado coloca Mato Grosso à frente de São Paulo, onde a relação ficou em 58,1%, Mato Grosso do Sul, com 61,8%, Goiás, com 61,9%, e Paraná, com 63,1%.
O desempenho ganha importância especialmente no Centro-Oeste, região que vem ampliando rapidamente sua capacidade de transformar a produção de milho em combustível, energia, proteína animal e outros produtos industrializados.
Em Mato Grosso, municípios como Nova Mutum e Sinop tornaram-se protagonistas dessa nova cadeia agroindustrial.
Nova Mutum ganha espaço no mapa nacional do etanol
Em Nova Mutum, um dos principais polos de produção de grãos de Mato Grosso, a presença da Inpasa transformou o município em um importante centro de industrialização do milho.
A empresa está executando uma nova expansão de sua biorrefinaria no município, com investimento anunciado de aproximadamente R$ 704 milhões.
Com a ampliação, a capacidade de processamento da unidade deverá crescer em mais 1 milhão de toneladas de grãos por ano, chegando a aproximadamente 3 milhões de toneladas anuais.
A expansão acrescentará cerca de 350 milhões de litros de etanol por ano à capacidade da planta. Quando a nova etapa estiver concluída, a unidade de Nova Mutum deverá alcançar aproximadamente 1,4 bilhão de litros de etanol por ano.
Além do combustível, o processamento do milho gera DDGS, produto rico em proteína utilizado principalmente na alimentação animal, além de óleo vegetal e energia renovável.
A previsão da companhia é de que as obras de expansão sejam concluídas até o final de 2026. Segundo a Inpasa, aproximadamente 800 postos de trabalho devem ser gerados durante essa nova etapa do empreendimento.
O tamanho da operação já pode ser observado pelos números recentes. Somente em 2025, a unidade de Nova Mutum processou aproximadamente 2,1 milhões de toneladas de milho, segundo relatório de sustentabilidade divulgado pela companhia.
Milho deixa de ser apenas commodity e vira energia
A expansão das biorrefinarias muda a dinâmica do agronegócio mato-grossense.
Historicamente grande produtor e exportador de milho, Mato Grosso passa a consumir uma parcela cada vez maior de sua produção dentro do próprio Estado. Em vez de o grão deixar as regiões produtoras apenas como commodity, parte crescente da safra é processada localmente e transformada em produtos de maior valor agregado.
O etanol é um deles.
A mesma tonelada de milho utilizada pelas biorrefinarias permite produzir combustível renovável, ingredientes para nutrição animal, óleo e bioenergia, criando uma cadeia que conecta diretamente agricultura, pecuária, indústria, logística e mercado de combustíveis.
Para regiões produtoras como Nova Mutum, Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop, esse processo representa também a criação de uma demanda industrial permanente pelo milho produzido durante a segunda safra.
A própria Inpasa está ampliando fortemente sua presença em Mato Grosso. Além de Nova Mutum e Sinop, a companhia anunciou uma nova biorrefinaria em Rondonópolis, dentro de um pacote que soma R$ 3,48 bilhões em investimentos no Estado.
Mato Grosso tem segundo etanol mais barato do Brasil
A força da produção regional também aparece diretamente nas bombas.
Em agosto, Mato Grosso registrou o segundo menor preço médio do etanol do país, de R$ 3,772 por litro, ficando atrás apenas de São Paulo, onde a média foi de R$ 3,735.
Mato Grosso do Sul apareceu logo depois, com R$ 4,078.
Os números reforçam o protagonismo do Centro-Oeste.
Dos cinco estados brasileiros onde o etanol apresentou as melhores relações de preço frente à gasolina, três estão na região: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás.
Essa vantagem ganha ainda mais relevância porque a produção regional possui características diferentes da tradicional indústria sucroenergética paulista. Enquanto São Paulo tem sua matriz predominantemente baseada na cana-de-açúcar, Mato Grosso avançou principalmente utilizando o milho como matéria-prima.
Isso permite que a cadeia de biocombustíveis esteja diretamente ligada à expansão da produção agrícola estadual.
Etanol ganha espaço no bolso do consumidor
No Brasil, o preço médio do etanol hidratado terminou agosto em R$ 4,050 por litro, queda de 2,7% em relação ao mês anterior, segundo o Monitor de Preços de Combustíveis elaborado pela Veloe com apoio técnico da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).
O desempenho fez do etanol o combustível com maior redução entre os seis produtos acompanhados.
No acumulado de 2026, a queda chega a 9,5% nos postos. Em 12 meses, a retração é de 5,1%.
A gasolina seguiu direção diferente. A gasolina comum acumula alta de 6% no ano e encerrou agosto com preço médio nacional de R$ 6,654 por litro.
Esse movimento ampliou significativamente a vantagem econômica do etanol.
Na média nacional, o preço do biocombustível passou a representar 65,6% do preço da gasolina, o menor percentual desde o início da série histórica em 2017.
Mato Grosso está ainda mais distante desse limite, com seus 55,6%.
Na prática, significa que o proprietário de um veículo flex no Estado encontra atualmente uma das maiores vantagens econômicas do Brasil ao optar pelo etanol.
Centro-Oeste fortalece posição estratégica
A expansão do etanol de milho coloca o Centro-Oeste em posição cada vez mais estratégica dentro da matriz energética brasileira.
Mato Grosso possui uma combinação difícil de ser encontrada em outras regiões: produção gigantesca de milho, disponibilidade de matéria-prima próxima às indústrias e investimentos bilionários em novas plantas de processamento.
Nova Mutum tornou-se um retrato dessa transformação.
A ampliação da Inpasa acrescentará capacidade industrial para absorver mais um milhão de toneladas de grãos anualmente dentro do próprio município. A empresa projeta que a planta chegará a aproximadamente 3 milhões de toneladas processadas por ano e 1,4 bilhão de litros de etanol.
É uma industrialização que cria uma nova relação entre o campo e a cidade: o milho produzido nas propriedades da região deixa de percorrer milhares de quilômetros exclusivamente em direção aos portos e passa a abastecer uma indústria instalada próxima das lavouras.
Mercado acompanha preços e expansão da produção
Apesar dos preços mais baixos encontrados atualmente nos postos, o mercado produtor começou a apresentar sinais de valorização.
Em São Paulo, os preços do etanol hidratado e anidro tiveram em agosto a primeira alta mensal da safra 2026/27 nas usinas.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), entre os fatores que sustentaram o movimento estão a possibilidade de chuvas no Centro-Sul, que podem interromper temporariamente a moagem da cana, a maior demanda das distribuidoras e o comportamento internacional dos preços do açúcar.
No Centro-Oeste, entretanto, outro elemento ganha cada vez mais importância: a disponibilidade e o preço do milho.
À medida que Mato Grosso amplia sua capacidade industrial, a relação entre produção agrícola e demanda das biorrefinarias tende a exercer influência crescente sobre o mercado regional.
Para setembro, consumidores continuam encontrando um cenário amplamente favorável ao etanol, especialmente em Mato Grosso.
Ao mesmo tempo, os investimentos em Nova Mutum, Sinop, Rondonópolis e outras regiões mostram que a discussão deixou de estar restrita ao preço na bomba.
O Centro-Oeste está construindo uma nova indústria de energia a partir de uma matéria-prima que conhece bem: o milho produzido dentro de suas próprias fronteiras.




