A guerra na Ucrânia pode expandir seu campo de batalha para a Coreia do Norte. A ditadura de Kim Jong-un pode estar cada vez mais na mira do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, que tem destacado as relações entre norte-coreanos e a Rússia de Vladimir Putin em declarações recentes. Assim, um cenário em que o país ataque o principal aliado russo parece ser cada vez mais provável. Essa é a análise do diplomata John Everard, que foi embaixador britânico na Coreia do Norte entre 2006 e 2008.
Em um artigo publicado no jornal sul-coreano Korea JoongAng Daily, Everard afirma que há “todos os motivos” para que a Ucrânia também possa atacar a Coreia do Norte.
“Pyongyang continua fornecendo à Rússia mísseis balísticos, projéteis de artilharia e outros suprimentos militares. Politicamente, a Coreia do Norte também se tornou hostil à Ucrânia. Os discursos de sua liderança retratam o país como um fantoche do Ocidente e glorificam tanto a agressão de Moscou quanto a participação de Pyongyang no conflito”, afirma.
Nesse cenário, segundo Everard, um ataque da Ucrânia valeria a pena se conseguisse interromper o apoio da Coreia do Norte à Rússia. “Forçar a Coreia do Norte a abandonar o destacamento de 30 mil soldados prejudicaria a planejada ofensiva russa de outono. Reduzir o arsenal bélico norte-coreano aceleraria a retomada de território pela Ucrânia. O principal aliado da Rússia seria humilhado”, destaca.
Retaliação de Kim Jong-un
Ainda segundo o ex-embaixador, as chances de danos causados por uma resposta norte-coreana seriam baixas. Kim Jong-un já teria enviado a maior parte de seu potencial militar no esforço de guerra da Rússia. Seus mísseis também já estão sendo usados no conflito. Apenas uma ameaça de uso de armas nucleares poderia provocar maiores perdas, mas, para isso acontecer, dependeria também da cooperação da Rússia, afirma o diplomata no jornal sul-coreano.
“A Coreia do Norte estaria ansiosa para evitar novos ataques ucranianos, mas também para não ser forçada a encerrar seu lucrativo comércio militar com a Rússia. Normalmente, quando amedrontado, o Norte negocia”, analisa Everard.
A Coreia do Norte tornou-se um dos parceiros militares mais próximos da Rússia desde que Vladimir Putin e Kim Jong-un assinaram um pacto de defesa mútua em junho de 2024.
Por que a Coreia do Norte entrou na mira agora?
Zelensky tem destacado em seus pronunciamentos recentes a aliança entre russos e norte-coreanos. Há uma semana, o presidente ucraniano afirmou que a Rússia estava se preparando para estacionar mais tropas norte-coreanas em território da Ucrânia. Além disso, apontou que mísseis balísticos de Pyongyang teriam sido entregues para as forças russas.
“Esta é a primeira vez que eles [as forças russas] não conseguem travar uma guerra sem reforços da Coreia do Norte”, disse ele em um de seus discursos.
O líder ucraniano também afirmou que a ditadura de Kim Jong-un decidiu enviar entre 30 mil e 50 mil norte-coreanos para solo russo.
Zelensky, no entanto, não apresentou provas ou maiores detalhes que comprovem suas afirmações.
A falta de provas pode tornar improvável um ataque ucraniano à Coreia do Norte, mas ele não pode ser descartado. “Ao longo da guerra, a Ucrânia surpreendeu seus adversários com inovações técnicas e estratégicas, desde sua expertise em drones até ações ousadas como a invasão da Rússia e o ataque ao navio iraniano. Não podemos saber o que Kiev está planejando, mas um ataque à Coreia do Norte se encaixaria nesse padrão”, diz Everard.




