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Concursados há 20 anos e com salários de R$ 11 mil, servidores da SES usaram terror psicológico para arrancar R$ 1,1 milhão de colega de trabalho

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Os servidores públicos estaduais investigados pela Polícia Civil, no âmbito da Operação Laço Oculto, por suspeita de extorquir R$ 1,1 milhão de uma colega de trabalho ocupam cargos efetivos de nível médio na SES-MT (Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso) há mais de duas décadas e possuem vencimentos brutos que superam os R$ 10 mil mensais cada um.

A apuração conduzida pela Derf (Delegacia Especializada de Roubos e Furtos) apontou que Deiwson Ortelhado e Fernanda Leite da Matta usaram táticas de manipulação psicológica e ameaças de agiotas para chantagear a vítima ao longo de quatro anos.

A reportagem consultou os dados funcionais e financeiros dos investigados junto ao Portal da Transparência do Governo do Estado. Deiwson Ortelhado é servidor concursado desde novembro de 2001, lotado na função de profissional técnico de nível médio do SUS (Sistema Único de Saúde) na Coordenadoria de Processamento de Informações de Serviços de Saúde.

Conforme os dados da folha de pagamento de agosto de 2025, ele recebe um subsídio bruto de R$ 11.234,85. Após os descontos compulsórios de previdência e imposto de renda, o valor líquido recebido pelo servidor é de R$ 8.331,12.

Deiwson Ortelhado

Já Fernanda Leite da Matta ingressou no serviço público estadual em junho de 2004 e atua na Secretaria-Geral do Conselho Estadual de Saúde. Ocupando o mesmo cargo de nível médio, ela possui remuneração bruta de R$ 10.802,74. Com as deduções legais, o rendimento líquido da servidora soma R$ 7.644,24 mensais.

Juntos, os dois servidores investigados custam mais de R$ 22 mil brutos por mês aos cofres públicos estaduais.

Segundo a apuração, o esquema contava ainda com a participação de um policial militar, apontado como o articulador do fluxo financeiro, e de dois intermediários (“laranjas”) que moram em Várzea Grande.

fernanda da matta

Entenda a investigação

O delegado Hugo Abdon Lima, responsável pelas investigações na DERF, disse que o crime teve caráter oportunista e explorou a vulnerabilidade da servidora. A trama começou quando Deiwison Ortelhado pediu a conta bancária da colega emprestada sob a justificativa de estar endividado.

O colega masculino dela, da secretaria, solicitou a conta bancária dela emprestada: ‘Olha, estou endividado, preciso da sua conta bancária emprestada’. Ela, colaborativa, emprestou a conta bancária e recebeu o valor de uma outra pessoa. Esses colegas viram que era o CPF dela e disseram: ‘Agora você também está em dívida com eles, tem que pagar junto conosco senão eles vão nos matar‘”, explicou o delegado.

A partir desse enredo, Fernanda assumiu as constantes cobranças, fingindo intermediar a negociação com os supostos agiotas. Sob contínua coação, a vítima realizou transferências sucessivas entre 2022 e 2025, sendo R$ 18 mil no primeiro ano, R$ 300 mil no segundo, R$ 300 mil no terceiro e cerca de R$ 300 mil no quarto ano.

Para arcar com os pagamentos, a mulher utilizou recursos de previdência privada, saques de cartão de crédito, empréstimos e economias destinadas à construção de sua casa.

A gente entende que o crime foi muito oportunista. Eles perceberam que, literalmente, a vítima era uma ‘galinha dos ovos de ouro’. Pressionavam ela, utilizavam dessa engenharia social muito parecida com o que estelionatários fazem“, destacou Hugo.

Movimentação milionária e sequestro de bens

Análises de inteligência financeira e quebras de sigilo autorizadas pelo Poder Judiciário confirmaram que todo o fluxo de capital passava por Fernanda e Deiwison antes de ser repassado aos demais envolvidos.

O rastreamento apontou que o Policial Militar investigado já atuava como agiota antes do crime e que um dos alvos chegou a movimentar quantias incompatíveis com sua renda formal.

Um investigado movimentou ao longo do tempo R$ 7 milhões. Não tem uma profissão que dá esse rendimento, não fez nenhum negócio jurídico para isso. Então a gente percebe que existe um esquema de circulação de valores, o que leva a crer que está havendo lavagem de capitais“, afirmou o delegado.

Ninguém foi preso

Nesta fase da operação, não foram efetuadas prisões em flagrante. O Judiciário cumpriu cinco mandados de busca e apreensão, determinou o sequestro de seis veículos populares e de uma motocicleta, além do bloqueio de até R$ 3,3 milhões nas contas dos suspeitos.

Para proteger a vítima, a Justiça também impôs medidas cautelares que obrigam os investigados a manterem distância física da servidora.

A DERF segue com as investigações para identificar se outras pessoas foram vítimas do grupo. Os servidores envolvidos também responderão a procedimentos disciplinares na esfera administrativa.

Por ANA JÁCOMO
VINÍCIUS ANTÔNIO

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