O conselheiro afastado do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), Alisson Carvalho de Alencar, teria recebido R$ 8,18 milhões em pagamentos considerados suspeitos pela Polícia Federal. O valor equivale a 71,7% de tudo o que foi repassado a outros quatro procuradores de Contas, cargo que ele ocupou até dezembro de 2025.
A informação consta na decisão do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que autorizou a Operação Tomada de Contas, deflagrada nesta quinta-feira (29) para investigar suspeitas de irregularidades em contratos e pagamentos do TCE-MT.
Alisson ingressou no Ministério Público de Contas em janeiro de 2009 e permaneceu como procurador até 22 de dezembro de 2025. No dia seguinte, assumiu o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas.
A comparação feita pelos investigadores leva em consideração sua trajetória como procurador de Contas, função que exercia antes de integrar o colegiado do tribunal.
Segundo a investigação, Alisson teria recebido R$ 8.186.496,57, incluindo parcelas mensais de R$ 150 mil pagas por meio de um canal normalmente utilizado para pagamentos a fornecedores, e não pela folha salarial ordinária.
Na decisão, o ministro Og Fernandes destacou que os valores atribuídos ao conselheiro seriam incompatíveis com os padrões habituais de remuneração do órgão.
“Segundo a investigação, os pagamentos direcionados a esse conselheiro indicariam situação financeira incompatível com os parâmetros ordinários de remuneração divulgados pelo órgão”, diz trecho do documento.
A investigação também identificou a constituição de uma empresa patrimonial ligada ao conselheiro.
Conforme a decisão, Alisson constituiu a ACA Holding Patrimonial Ltda., em conjunto com a mãe e um irmão, já falecido. A empresa possui capital social de R$ 3.479.501.
Os investigadores apuram se estruturas societárias e patrimoniais ligadas aos investigados podem ter sido utilizadas para ocultar ou dissimular recursos de origem suspeita.
Alisson foi afastado cautelarmente do cargo de conselheiro por determinação do ministro Og Fernandes.
A decisão também o proíbe de acessar as dependências e os sistemas do TCE-MT, inclusive remotamente, e de manter contato com outros investigados e servidores do órgão, ressalvadas as exceções previstas na determinação judicial.
O conselheiro também está proibido de deixar o país e deverá entregar seu passaporte às autoridades.
Além disso, foram impostas restrições à realização de atos societários e à aquisição ou alienação de bens de valor superior a R$ 50 mil sem autorização judicial.
As medidas buscam evitar possíveis interferências na investigação e impedir a movimentação ou ocultação de patrimônio que possa estar relacionado aos fatos apurados.
Tomada de Contas
Na operação foram presos o presidente do TCE-MT, Sérgio Ricardo, o consultor jurídico-geral do TCE-MT, Gregory Paiva; o servidor Adriangelo Barros Antunes; a secretária-executiva do TCE-MT, Roseli Loss; e os advogados Felipe José Glinke e Gustavo Fernandes da Silva.
Cerca de 180 policiais federais cumprem seis mandados de prisão preventiva e 26 mandados de busca e apreensão. Também foram afastados dos cargos os conselheiros Guilherme Maluf, Alisson Alencar, José Carlos Novelli, e o conselheiro aposentado Valter Albano.
Houve ainda determinação para sequestro de bens, em que carros e relógios de luxo, dinheiro em espécie e até bebidas como vinho e uísque foram apreendidos. As ações ocorrem em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo.
A investigação apura indícios de que a suspensão de contratos administrativos teria sido utilizada como mecanismo de pressão sobre fornecedores, além de possível tratamento diferenciado na liberação de recursos públicos. Também são investigadas divergências nos pagamentos a empresas, movimentações financeiras atípicas envolvendo servidores públicos e saques recorrentes em espécie.
Por VITÓRIA GOMES



