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Pós-eleição vira pesadelo para trabalhadores demitidos por política em MT

O resultado das urnas não encerrou a disputa política acalorada do país, que agora avança até mesmo dentro dos ambientes de trabalho em Mato Grosso. Relatos de trabalhadores que afirmam ter sofrido retaliações, constrangimentos e até demissões após as eleições acendem um alerta sobre a tentativa de transformar divergências ideológicas em perseguição profissional. As consequências da polarização começam a aparecer também nas relações de trabalho e podem escalar para retaliações graves e perigosas à democracia, como já noticiado diversas vezes nas últimas semanas.

A reportagem ouviu uma das trabalhadoras que, um dia após o segundo turno das eleições, foi vítima da onda de demissões do movimento extremista encabeçado por apoiadores do ex-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL).

Buscando a preservação da identidade, ela será identificada nesta reportagem pelo nome fictício de Giovana*.

Para a reportagem, a jovem pontua que sua manifestação política nas redes sociais pode ter contribuído para sua demissão de um consultório clínico. Ela trabalhava há pelo menos dois anos no estabelecimento e, durante o período eleitoral, utilizou seus perfis pessoais para fazer campanha voluntária ao candidato em quem acreditava.

Segundo o relato, o ambiente profissional mudou depois das eleições. Giovana afirma que era a única funcionária com posicionamento político diferente dos demais colegas e que passou a perceber um clima estranho no local. Na sequência, recebeu a comunicação de seu desligamento, justificada pela empresa como um suposto corte de gastos.

“Depois das eleições, senti um clima bem estranho no trabalho, porque sou a única com pensamento político diferente das pessoas que trabalham comigo. Nunca tinha escutado falar de crise financeira e, logo após a eleição, fui demitida com a justificativa de corte de gastos”, relatou.

Embora reconheça que não possui confirmação de que a decisão tenha sido motivada por sua posição política, ela desconfia que a movimentação de empresários favoráveis a boicotes contra eleitores de determinados partidos possa ter influenciado o desligamento.

“Infelizmente, acredito que o engajamento político possa ser um dos motivos da minha demissão, devido a essa movimentação que certos empresários estão fazendo em demitir funcionários por terem votado em um partido político de que eles não gostam. Acho injusto e muito errado fazerem isso com funcionários, sem respeitar nenhuma opinião contrária”, lamentou.

A trabalhadora afirma que pretende buscar outro emprego e seguir os caminhos legais para garantir seus direitos trabalhistas. No entanto, avalia que nem todos os profissionais atingidos por situações semelhantes terão as mesmas condições de recomeçar.

“Pretendo seguir a legalidade. Se eu receber meus direitos, logo procuro um outro emprego melhor, mas infelizmente nem todo mundo terá a mesma oportunidade, o que acho injusto e muito errado da parte deles fazerem isso com funcionários, não respeitando nenhuma opinião contrária, o que prejudica até a harmonia no ambiente”, finaliza.

Reprodução

ADVOGADO, Richard Rodrigues da SilvaO advogado e professor Richard Rodrigues da Silva

Para o advogado e professor Richard Rodrigues da Silva, especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho e ex-integrante da Comissão de Direito do Trabalho da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Mato Grosso (OAB-MT), a liberdade de convicção política é uma garantia constitucional e não pode ser utilizada como justificativa para discriminar trabalhadores.

Segundo ele, a pressão pode ocorrer de diferentes maneiras, desde ameaças e vigilância até exigências para que funcionários manifestem apoio a determinado candidato, utilizem materiais de campanha ou declarem publicamente suas preferências eleitorais.

“A empresa não pode demitir em justa causa funcionário que vota em candidato A ou B, porque é garantida constitucionalmente sua liberdade de convicção política. Normalmente, isso acontece quando o patrão ameaça, pressiona, vigia o funcionário e até o obriga a usar roupas ou bottons de candidatos”, orienta.

O especialista explica que, quando comprovada a motivação discriminatória, a conduta pode gerar responsabilização do empregador, inclusive por danos morais. A análise, porém, depende das circunstâncias e das provas de cada caso.

Richard ressalta que o trabalhador que suspeita de perseguição política precisa reunir elementos que demonstrem a relação entre a conduta do empregador e o prejuízo sofrido. Mensagens, e-mails, áudios, capturas de tela de conversas, testemunhos e até manifestações públicas do patrão nas redes sociais podem ser utilizados em uma eventual ação trabalhista.

“Isso é considerado assédio moral e traz efeitos referentes a danos morais. Todo e qualquer documento que possa demonstrar o fato, como mensagens, e-mails, prints de conversas, áudios, testemunhos de outras pessoas, ou até manifestação do empregador nas redes sociais, tudo isso pode ser utilizado como prova. O trabalhador pode levar ao Tribunal Regional do Trabalho e formalizar denúncias”, garante.

O advogado orienta que as vítimas procurem o sindicato da categoria, o Ministério Público do Trabalho (MPT) ou a Justiça do Trabalho para formalizar as denúncias e avaliar as medidas cabíveis. Além de indenização por danos morais, dependendo das circunstâncias e do reconhecimento judicial da discriminação, o trabalhador pode buscar a reversão dos efeitos da demissão e até a reintegração ao emprego.

Nessas situações, existe a possibilidade de requerer a rescisão indireta do contrato de trabalho, mecanismo pelo qual o empregado busca o encerramento do vínculo em razão de faltas graves cometidas pela empresa, com o recebimento das verbas rescisórias correspondentes à dispensa sem justa causa, caso reconhecido o direito pela Justiça.

Reprodução

MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO, FACHADA CUIABÁ

Sede do MPT-MT

Os relatos aparecem em meio a um aumento expressivo de denúncias relacionadas ao assédio eleitoral em Mato Grosso. Levantamento do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso (MPT-MT), divulgado nesta quinta-feira (29), aponta que o órgão recebeu 61 denúncias entre 1º de janeiro e 28 de outubro de 2026, instaurou 25 inquéritos civis e expediu 31 recomendações.

Um dos dados que mais chama a atenção é a quantidade de novos registros após o encerramento da votação. Somente entre os dias 26 e 28 de outubro, o Ministério Público recebeu outras 31 denúncias, praticamente metade de todo o volume contabilizado no estado durante o período analisado.

Cuiabá concentra o maior número de registros, com 20 denúncias. Sinop aparece na sequência, com nove, seguida por Barra do Garças, com sete. Rondonópolis contabilizou quatro registros e Várzea Grande, três. Outras 15 localidades também aparecem no levantamento, com uma ou duas denúncias cada.

Nas eleições gerais de 2022, o MPT-MT recebeu 119 denúncias de assédio eleitoral, envolvendo 80 empregadores denunciados. Na ocasião, foram ajuizadas 12 ações civis públicas, com concessão de 11 liminares. Já nas eleições municipais de 2024, foram registrados 21 casos no estado.

Trabalhadores que tenham sofrido ou presenciado situações de assédio eleitoral podem denunciar pelo site da Procuradoria Regional do Trabalho da 23ª Região.

O órgão informa que a identidade do denunciante é preservada.

Por Fred Moraes

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