Representantes do agronegócio de Mato Grosso acompanham com atenção os sinais de Flávio Bolsonaro (PL) sobre a futura relação do Brasil com a China. Interlocutores do setor ouvidos relatam que tentaram, mais de uma vez, conversar diretamente com o presidenciável durante o primeiro turno, mas não conseguiram espaço em sua agenda. Os pedidos teriam sido direcionados a assessores e, em uma das tratativas, a resposta foi de que “não era a hora” de discutir o assunto.
Nos bastidores, a dificuldade foi interpretada como cautela de Flávio para evitar compromissos sobre a política comercial com Pequim antes da eleição. Publicamente, o candidato afirma que pretende manter uma relação pragmática com os chineses e que o Brasil não precisa escolher entre China e Estados Unidos. A preocupação do setor decorre, sobretudo, da proximidade política de Flávio com o presidente norte-americano Donald Trump.
Para Mato Grosso, não se trata de uma discussão meramente diplomática. A China é, de longe, o principal mercado externo da produção estadual. Em 2025, o país asiático comprou US$ 12,2 bilhões em produtos mato-grossenses, equivalentes a 40,7% de todas as exportações do Estado, segundo dados oficiais da Sedec. Mato Grosso movimentou US$ 21,2 bilhões apenas em exportações agropecuárias naquele ano. Em 2024, a China já havia absorvido 33% das vendas externas do Estado, numa pauta liderada por soja, milho, algodão, farelo e carne bovina.
É justamente essa dependência que explica a inquietação. Qualquer deterioração da relação Brasília-Pequim pode atingir preços, embarques e investimentos em um Estado cuja economia está profundamente vinculada ao mercado chinês.
Flávio, ao mesmo tempo, estreitou os vínculos com Trump e sinalizou aproximação estratégica com Washington. Para representantes do agro, a questão central não é impedir essa aproximação, mas saber se ela virá acompanhada de garantias de que a relação comercial com a China será preservada. No segundo turno, com Mato Grosso dando a Flávio mais de 65% dos votos válidos, a expectativa é que o presidenciável seja pressionado a apresentar uma resposta mais clara. Afinal, para o agro mato-grossense, Pequim está a milhares de quilômetros de distância, mas responde por quatro de cada dez dólares exportados pelo Estado.
Do DC




