Campo Novo do Parecis vive um momento que, à primeira vista, parece contraditório. De um lado, o município atravessa um período de crescimento econômico, demográfico e social impulsionado pela força do agronegócio e pela expansão de sua cadeia turística. De outro, o prefeito Edilson Piaia enfrenta, nas redes sociais e em conversas pelas ruas, uma percepção de desgaste político que não parece combinar com o volume de ações e investimentos realizados pela administração.
Piaia definitivamente não é o típico prefeito que passa o dia produzindo vídeos para TikTok, Instagram ou outras plataformas. Seu estilo é mais discreto e pouco afeito à exposição permanente. A comunicação da administração, entretanto, apresenta uma sequência de obras, serviços, programas e articulações políticas que mostram uma gestão com presença em diferentes áreas.
A pergunta que começa a surgir em Campo Novo do Parecis é justamente esta: se há tantas entregas, por que parte da população continua demonstrando insatisfação com o prefeito?
É importante fazer uma ressalva: sem uma pesquisa de opinião pública recente e metodologicamente confiável, não é possível afirmar numericamente que a popularidade de Piaia está em baixa. O que existe é uma percepção observada nas redes sociais e nas conversas da população, algo que merece ser analisado.
A sensação de que “governa para os ricos”
Uma das críticas que aparecem nas conversas pela cidade é a de que Piaia estaria “governando para os ricos”.
A frase, entretanto, parece entrar em choque com algumas das principais iniciativas desenvolvidas pela administração justamente nas áreas sociais.
Na habitação, por exemplo, o município colocou em andamento um dos maiores programas populares recentes, com a construção de 700 unidades do Residencial Encantos do Parecis.
Na saúde, o antigo hospital municipal passou a ser administrado pelo instituto responsável pelo Hospital Hilda Strenger Ribeiro, de Nova Mutum, unidade que ganhou destaque regional pela estrutura e pelos serviços oferecidos.
O município também articulou recursos para a construção de uma UPA, com apoio do senador Jayme Campos, enquanto o deputado Valmir Moretto destinou recursos para a nova biblioteca municipal.
São investimentos que, em tese, não se enquadram facilmente na ideia de uma administração voltada exclusivamente às camadas de maior renda.
Uma cidade que cresce e “muda rapidamente”
Parte da explicação para o desconforto pode estar justamente no momento vivido por Campo Novo do Parecis.
A cidade cresce. E cidades que crescem rapidamente também passam a enfrentar problemas novos, expectativas maiores e uma população mais exigente.
O próprio prefeito, ao assumir o mandato, reconheceu que o município vive um período de desenvolvimento acompanhado de desigualdades e afirmou que as demandas da população seriam um dos direcionamentos da administração.
Esse crescimento aumenta a pressão sobre serviços públicos, mobilidade, saúde, educação, infraestrutura, habitação e segurança.
Ao mesmo tempo, quem mora em uma cidade que cresce tende a comparar o que existe hoje com aquilo que gostaria que existisse amanhã.
É possível, portanto, que parte da insatisfação não esteja necessariamente relacionada à ausência de obras, mas à velocidade com que a população espera que os problemas sejam resolvidos.
Uma lista extensa de realizações
Somente no último ano, a administração municipal acumulou iniciativas em praticamente todas as áreas da gestão pública.
Na educação, Campo Novo do Parecis obteve nota 6,6 no Ideb, acima da média nacional, enquanto avançam as obras da nova Escola Estadual União da Chapada.
Na infraestrutura, foram executadas obras de recapeamento da Avenida Mato Grosso, além de intervenções em ruas e bairros, como a preparação da Rua 45, no Jardim das Palmeiras, e a aplicação de imprimação na Rua Frei Galvão, etapa anterior à pavimentação.
Também avançam as obras de ampliação da bacia de contenção do Jardim das Palmeiras, o conhecido “piscinão”, projetado para armazenar grandes volumes de água das chuvas e ajudar no combate aos alagamentos.
Na saúde, a prefeitura inaugurou um novo Centro de Material e Esterilização (CME), promoveu reformas e ampliações em estruturas hospitalares e avançou na organização dos serviços.
Na área social, houve a reinauguração do CRAS Dilceu Maciel, com estrutura revitalizada, além da inauguração da ILPI Amália Barros, destinada ao acolhimento e cuidado da população idosa.
Segurança, turismo e economia também entraram na agenda
A administração também vem investindo em áreas que vão além do tradicional pacote de obras municipais.
Campo Novo do Parecis avançou na implantação da Guarda Civil Municipal e do Núcleo Municipal de Inteligência, buscando ampliar a estrutura de segurança pública.
No turismo, o município implantou nova sinalização turística e segue promovendo eventos ligados à identidade cultural da região. Entre eles está a FIT Etno Brasil, marcada para ocorrer de 4 a 6 de setembro.
Na economia, foi criado o programa de credenciamento para estimular que o próprio município compre de fornecedores locais, fortalecendo empresas e empreendedores da cidade.
O Empreende CNPJ, por sua vez, foi criado como extensão do programa Meu CNPJ, com foco na capacitação, orientação e qualificação dos pequenos empresários.
Campo Novo também recebeu equipamentos e maquinários destinados ao fortalecimento da agricultura familiar.
E há ainda ações de caráter social, como o Casamento Abençoado, desenvolvido em parceria com o Governo do Estado e o Poder Judiciário.
Reconhecimento institucional
A administração também acumula reconhecimentos.
O município foi premiado no Pronagov 2025, além de receber reconhecimento nacional relacionado a boas práticas de governança pública.
A prefeitura também mantém uma agenda de articulação política em Cuiabá e Brasília para buscar recursos e investimentos. Em março deste ano, por exemplo, a visita do governador Mauro Mendes ao município foi marcada por anúncios para educação, infraestrutura e agricultura familiar, incluindo pavimentação, escola, creche e equipamentos. A própria prefeitura atribuiu parte das articulações ao trabalho de Piaia.
A tramitação na Câmara Municipal também mostra uma administração que segue movimentando o orçamento e encaminhando projetos de investimento. Em diferentes sessões de 2026, foram aprovados créditos suplementares e outras matérias de iniciativa do Executivo.
Então, onde está o problema?
É justamente aí que está o enigma.
Talvez o problema de Piaia não esteja necessariamente na falta de realizações, mas na comunicação dessas realizações e na percepção que parte da população tem sobre quem está sendo beneficiado por elas.
Uma obra pode ser tecnicamente importante e, ainda assim, não produzir dividendos políticos imediatos.
Uma avenida recapeada é visível, mas pode não resolver a reclamação de quem espera por uma consulta médica.
Uma nova escola é uma grande conquista, mas não muda imediatamente a vida de quem está procurando emprego.
Uma UPA anunciada é uma importante perspectiva para a saúde, mas a população avalia o serviço que encontra hoje.
Um programa habitacional beneficia centenas de famílias, mas milhares de outras continuam esperando por uma oportunidade.
Esse é um dos dilemas clássicos da administração pública: entrega de governo e percepção popular não caminham necessariamente na mesma velocidade.
Piaia pode estar diante de um problema de comunicação
O estilo mais discreto do prefeito pode ser parte da explicação.
Em uma época em que a política municipal também virou uma disputa diária por espaço nas redes sociais, não basta necessariamente fazer. É preciso mostrar, explicar, prestar contas e, principalmente, estabelecer uma narrativa que permita à população compreender onde o dinheiro público está sendo aplicado.
Piaia não parece ter adotado o modelo do prefeito influenciador digital.
Isso pode preservar sua imagem de gestor mais técnico e menos preocupado com exposição. Mas também pode abrir espaço para que outras narrativas ocupem as redes sociais.
Quando o governo não explica sua própria história, alguém inevitavelmente contará essa história por ele.
E é aí que uma administração pode acumular realizações e, ao mesmo tempo, perder a batalha da percepção.
O desafio para os próximos anos
Campo Novo do Parecis não é mais a mesma cidade de alguns anos atrás.
O crescimento do agronegócio, a expansão do turismo, a chegada de novos moradores e a ampliação da atividade econômica aumentam a arrecadação, mas também elevam as expectativas.
A população quer mais.
Quer ruas melhores, saúde mais eficiente, segurança, habitação, educação, lazer, emprego e qualidade de vida e quer tudo isso em velocidade compatível com o crescimento da cidade.
O desafio de Piaia, portanto, talvez seja menos provar que sua administração está trabalhando e mais conseguir transformar as realizações em percepção positiva junto à população.
E existe uma diferença importante entre as duas coisas.
Uma prefeitura pode apresentar uma longa lista de obras e programas. Mas, no fim das contas, a avaliação política será feita pela resposta a uma pergunta simples que cada cidadão faz individualmente:
“O que melhorou na minha vida?”
Se a administração conseguir conectar a quantidade de obras e investimentos já realizados à vida cotidiana das pessoas, o cenário político pode mudar.
Caso contrário, Campo Novo do Parecis poderá continuar vivendo um paradoxo: uma cidade em pleno crescimento, uma prefeitura com uma extensa agenda de realizações e um prefeito ainda tentando convencer parte da população de que esse desenvolvimento também chegou para ela.
Esse talvez seja, hoje, o verdadeiro desafio político de Edilson Piaia.
Por Mauro Fonseca




